domingo, 6 de setembro de 2026

Balbúrdia PoÉtica

Balbúrdia PoÉtica Por Ética

manifesto anti-barbárie – dia 23 setembro as 18 às 22h – Coffe Break – Av. Henrique Valladares, 17ª – Lapa  - Rio de Janeiro – Brasil

Poetas convidados para participações poéticas

Fátima Borchert + Alexandre Brandão +Angel Cabeza + Mano Melo + Noélia Ribeiro +Alexandre Guarnieri + Igor Fagundes + Igor Calazans +

Marcelo Mourão + Anna Maria Fernandes + Dei Ribas + Jorge Piri +  Monica Serpa + Val Mello + Telma da Costa + Nuno Rau + Christovam de Chevalier + Adriano Espínola + Salgado Maranhão + Carmen Moreno +  Wanda Monteiro + Maria Helena Latini + Carlos Orfeu + Lúcio Celso Pinheiro +

Iverson Carneiro + Mariana Valle + Ricardo Vieira Lima + Luiz Otávio Oliani +  Marisa Vieira + Rose Araujo + Victor Colonna + Sady Bianchin + Marcela Giannini + Sílvio Ribeiro de Castro + Margareth Bravo + Karla Julia

Atrações musicais:

André Marçal + Paulo Ciranda

Curadoria  : Quinteto Enluarado

Artur Gomes + Delayne Brasil |+ Eurídice Hespanhol +  Jorge Ventura  + Tanussi Cardoso - 

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Balbúrdia PoÉtica

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Artur Gomes

Poeta Enquanto Coisa

Fé no Evoé:

Confissões dionisíacas na poética e política de Artur Gomes 

Igor Fagundes * 

Depois das excitadas e excitantes Juras secretas, de 2018, o poeta e artista multimídia Artur Gomes volta a tornar pública sua jura de amor e fidelidade ao arcaico deus Dionísio em O poeta enquanto coisa, de 2019, incorporando as ébrias forças de Baco sob novos goles e ritos, tão poéticos quanto políticos, numa contemporaneidade que avança em lama e vertigem e, assim, exige a potência do mítico da palavra corpórea e originária. Comparece ao ethos deste livro a mesma embriaguez fulinaímica de sempre: a que toma, mediante o delírio atento frente aos passos obtusos do ser e estar das gentes, cada palavra como taça, vinho tinto e uma tinta capaz de, em contrapartida, rogar lúcida a passagem dilacerada do humano pelas páginas turvas do mundo. Que, em prefácio, ressoe agora-aqui a face mesma de assonâncias de Artur. Que em pré-faces (a da melopeia, a da fanopeia, a da logopeia) o poeta se apresente, por assim dizer, multifacetado, contaminando-nos com os tempos de seu ritmo venéreo. Que se capte, enfim, o próprio escape das imagens ímpares e afiadas pelo gume de Gomes, repetindo-se – com outros nomes e aliterações – seus deleitosos jogos de palavras em nossa fome de análise e anúncio: incorporemos, nessa prosa de abertura, a música de seus trocadilhos, a curvatura das paranomásias no retilíneo das linhas do livro: a que verte vulva em verso, Afrodite em afro-ditos de orixás em orgias com Ártemis e Hermes.

       Que o veraz poeta, para aquém do denominado moderno, para além do já clichê pós-moderno, para quem dos rótulos e taxonomias previstas pelas literárias teorias, atravessa o pós-pós de tudo e mesmo o pó da historiografia. Artur Gomes se exibe, ao revés, pré-antigo (tão dentro quanto fora do chronos) na atualidade incorrigível de uma poesia dedicada à Gaia (lê-se na dedicatória: “e a Terra/Mãe/Terra a musa eterna dos meus estados de surtos dos meus estados de sítio dos meus estados de cio”). Enquanto bebe, no tempo cronológico (“tempo de bestas”, “na caretice dos bostas”), as lutas e lutos de sua época e século (“esse país que atravesso corpo devassado em grito na cara do silêncio”), inebria-os e subverte-os no tempo imemorial da Terra para fundar o Aion sem fundo do instante-em-transe da experiência artística. Por isso, não basta citar, em cacoete analítico, os tiques nervosos que convêm à crítica (mencionar modernismos influentes, a geração beat, a poesia pop, a tropicália...) para entender sua lírica. Nem seria preciso. Soaria até repetitivo elencar, neste preâmbulo, as personagens caras a Gomes, forjando-o efeito do esbarro nelas todas, do encontro com elas, das tramas e transas com obras e corpos do passado e presente: o poeta já o faz e cumpre a coletânea como a dramaturgia de sua errância pelo imaginário e pelo inconsciente, os quais derramam sobre o copo do real e da consciência alter-egos confessos e inventados – tudo o que for líquido nos vasos sanguíneos do poeta alcooliza o poemário com o híbrido de fogo fátuo e frios fatos.

Artur Gomes – assinatura por vir, heteronímica, heteromórfica – assim apresenta em O poeta enquanto coisa suas juras não mais secretas, mas públicas, ainda púbicas, aos afetos que compõem e decompõem sua literaturavida. Seus versos são rascunhos, rasuras e ranhuras a passar a limpo os nexos e os nervos de sua fatura formal e estilística, deixando sobre a página tanto um rastro de unha quanto o esmalte dos escritos e vozes que em sua alma avultam e nos dedos instauram cutículas.

Tais intertextos e intratextos, ou ainda, tais hipertextos insaciáveis se disseminam pela obra na mesma proporção com que se concentram em cada poema, lado a lado ou embaralhados; falseando nos rebentos líricos as certidões de batismo e, em poligamia, proliferando as certidões de casamento com as leituras/releituras de livros, bem como com o folhear de rostos amigos, ou com o riso e risco do desconhecido, não obstante o postergar de comprovantes de residência, de pátrias de origem: cada gesto, um tanto Ulisses, desmente Ítacas, deslinda labirintos (do Minotauro?) ou mesmo fios (de Ariadne?), teatralizando ad infinitum as alteridades que servem como impressão digital provisória e polimórfica para alguma identidade fluida, fragmentada, ao rés da fantasia. Mas nada disso seria possível – nenhuma conversa com livros, nenhum sexo com as líricas de um outro e de uma outra – seria concreto sem a lascívia uma vez mais dionisíaca de um cérebro em gozo sináptico, em psiké-análise, em psiké-catálise, em psiké-catábase: esta que põe no divã do poeta as divas Oxum e Afrodite atravessadas, fosse a sala do analista também um templo pagão ou uma ilha de Lesbos, de modo que Artur construa entre sua cama e seu karma de vate uma Igreja imoral/amoral do Reino de Zeus. E dos muitos Eus que exilam hóstias e comungam com o jamais fixo e intransigente credo.

Esta, a sacralização do profano e do erótico, ou a profanação do sagrado enquanto humano, do poeta enquanto coisa (“o amor mesmo quando profano / tem muito mais de sagrado”): filho de um deus com uma mortal, Dionísio dança na recorrência da palavra “vinho” no livro, a exemplo dos versos:  “aqui / a poesia pulsa / na veia / no vinho”; “por vinho tinto e poesia”; “ela tem sede de vinho / nas madrugadas dos bares”; “o vinho do tempo na boca”; “em nossas bocas tinto – vinho”; “beijo tua boca ainda suja / do vinho que sobrou”; “me consagro teu amante / pelos vinhedos de Baco / no ápice sagrado / da su-real pornofonia”. A embriaguez dos significantes e dos significados é a que tanto forja imagens insólitas (como a de um “céu de estanho” ou como em “ela mastiga meus ponteiros”) quanto a que costura melodias bem trabalhadas entre vogais, consoantes ( “entre paredes pedras facas de dois gumes / nos parreirais depois da lua), ratificando a inteligência verbal (a logopeia) de Artur Gomes dobrada em melopeia (música) e fanopeia (imagética). Visualidade provocada, a saber, não só pelas imagens significadas pelos significantes, mas visualidade ou imagem do próprio significante, o qual, dentro de si, dá à luz significâncias outras (“EuGênio Andrade”, “Afro-dite, “BolivariAndo”, “eletriCidade”), pois Artur Gomes – nesta “pornofonia” – é mestre na criação de neologismos (em tudo se vê uma “carNavalha”).

Não apenas o corpo do homem, da mulher, se sensualiza e se sexualiza sob a força cósmica de Eros. É o poema mesmo que, em O poeta enquanto coisa, é corpo sensualizado, sexualizado, da mesma maneira que a cidade, o mundo, os tempos e o Tempo são Eros, vez que a palavra é pele e poro (duas palavras aliterantes e frequentes em Artur Gomes). Nessa porosidade, o poeta se entende permeável a coisas e pessoas (a pessoas já misturadas às coisas, a pessoas já coisas): “por entre poros entre pelos / minhas unhas tuas costas”. Também por isso, por essa poesia de tamanho contato, fricção, a relação com a língua se confirma erotizada e – vale dizer – tanto a língua física quanto a verbal, o que equivale a dizer que escrita e oralidade se reencontram no poeta: a sofisticação da escritura literária não perde (pelo contrário, potencializa) a dimensão primigênia do poeta como cantor, como ator “na divina língua de Baco”, a qual se exalta mediante a recorrência também da palavra “boca” e da palavra “coxa”: uma é a que beija, lambe, morde e degusta; outra é a beijada, a lambida, a mordida, a degustada. Ambas em rima toante também entoam ritmos e ritos profanos-sagrados:

o poema fala do teu corpo
como se o tocasse 
o reconhecesse em cada verso
cada palavra que sai da boca 
como um canto bíblico
com louvor profano 

Nessa performance e performatividade lingual-linguística, todo signo cisma um erotismo entre o significante e o significado, sim, mas também entre página e palco, palco e praça, praça e povo, a babel dos povos e a babel das palavras: daí, tantos trocadilhos (troca-trocas, orgias, surubas...), como o da “flór do lótus” com a “flor do lácio”, o das “coxas” com as “costas”, o do “fauno” com a “flauta”, o da “alvorada” com o “alvoroço”, o da “antítese” com a “Antígona”. Eis a língua física, outrossim, a trocar com a verbal, mas sendo ao mesmo temo pelo verbal trocado, e vice-versa. Eis o poeta trocando com outros poetas ou sendo trocado por poetas outros, vestindo a roupa dos outros e tirando a sua roupa para ser outro: Federico Baudelaire, Gigi Mocidade, Bracutaia Silva, Federika Bezerra, Cristina Bezerra etc. O poeta, analista translógico da psique, troca com sua psicanalista. E o poeta se tenta analista de si mesmo, elevando o caos para a troca de seu nome Artur por timbres e assinaturas novos. Do mesmo modo, o nome dos poetas que existem, os que morreram e ainda não, os vivos hoje e sempre, vai se trocando, em rearranjos da memória (e do recriativo esquecimento). Artur Gomes troca poetas em seu corpo e, trocando com eles, entende que todos trocam entre si, a exemplo do diálogo poético de Clarice com Baudelaire. Mais ainda: o corpo do poeta troca com o corpo do poema e, consoante em “Poética”, a metalinguagem elabora um troca-troca de textos sob o mesmo título, pois o poema “Poética” se metamorfoseia em outros poemas: o tema “Poética” permanece, mas se trocando: o mesmo sendo diferente. A palavra “outro(s)” se sugere, enfim, ouro neste livro, e é nessa não indiferença ao outro, que o poético se faz ético e político. E nessa política da e pela diferença, a cidade do corpo se troca e vira o corpo da cidade. Assim, o poeta é – quando e enquanto coisa.      

No meio de tantas referências e reverências, borrões (d)e assinaturas (como as de Mário de Andrade, Drummond, Torquato Neto, Rimbaud, Mallarmé, Tanussi Cardoso, Tchello d’Barros, Jiddu Saldanha, Ronaldo Werneck, Reinaldo Valinho Alvarez, Reinaldo Jardim, deuses e deusas gregas, orixás), o “anjo torto” de Artur Gomes não sopra no livro Manoel de Barros ou James Joyce, escritores também engenhosos e que se vale de muitos ilogismos ou neologismos. Todavia, O poeta enquanto coisa não deixa, na qualidade de título de livro, de repercutir o Retrato do artista quando coisa (de Barros) e o Retrato do artista quando jovem (de Joyce).  Do mesmo modo, não havendo menção (ao menos, explícita e intencional), ao “Teatro Oficina” de José Celso Martinez Corrêa, a dimensão orgiástica da arte e a reunião – não menos sacro-promíscua – de mitos gregos e africanos, a assimilação pela cultura ocidental de outras culturas, aparece em Artur Gomes nesta, quiçá, Poesia Oficina. A relação gozosa e experimental com que a palavra se faz poema e se teatraliza faz de seus livros um grande laboratório da língua, do corpo e da cultura, com repercussões nitidamente políticas. 

Se Pantanal é o corpo poético e o poema experimental, de aparente falta de lógica, lembrando o discurso infantil, no Manoel de Barros do Retrato do artista quando coisa, a urbe é o corpo prenhe de sexualidade e sensualidade em Artur Gomes, nos supostos ilogismos do discurso adulto que se vê fragmentado e devorado por Eros e Thanatos, e no qual a relação sujeito-objeto já não dá conta quando o humano se vê coisa (não mais agente ou paciente, voz ativa ou passiva: talvez, as duas ao mesmo tempo). Como no Pantanal de Barros, a linguagem de Gomes é lamacenta, cheia de líquidos e delírios: a seiva se expande e se intensifica com (ou se troca por) suor e sêmen. Lama, agora, é a cama: o mangue ou o pantaneiro é a cama de Artur onde dormem, acordam, sonham, gozam e ardem todos os corpos (humanos e não humanos) aqui já citados e dispostos nos lençóis, colchas e fronhas da página.

Por outro lado, temos na trajetória literária de James Joyce, a intertextualidade com Ulisses de Homero. Artur Gomes ouve o canto da sereia em sua cama, livro, divã, e talvez do inconsciente escute a voz de um “artista quando jovem”, vinda de Joyce. Nesta, a personagem protagonista Stephen Dedalus, aquele que será adiante o anti-herói de Ulysses, diz à sua mãe que não poderá seguir a vocação de padre. Ele descobriu uma nova e grandiosa missão em sua vida: a de criar uma nova e poderosa mitologia para o povo irlandês. O romance autobiográfico de Joyce narra a infância de Dedalus (máscara de Joyce), personagem que vai aparecer novamente em Ulysses. A vida do pequeno Dedalus é marcada pela religiosidade da mãe. Ela quer que o filho siga a carreira eclesiástica. Vários padres fazem parte da vida de Dedalus e vão moldando sua consciência. O momento de virada na vida da personagem principal se dá no momento em que ele escuta um horrível sermão feito por um padre sobre o inferno que o deixa muito impressionado. Dedalus passa a viver como um carola seguindo à risca todos os jejuns e mandamentos da igreja católica. Nesse momento, ele até se sente como um futuro padre. Com a sequência do romance, vemos o jovem Dedalus passar de uma fase religiosa para uma de sensualidade. Sente-se cada vez mais obcecado com a ideia da confissão. Ele então confessa a um padre todos os pecados sensuais que pratica. Abandona definitivamente a convocação de ser padre e passa a se interessar por ideias artísticas e estéticas. Dedalus abandona a carreira de padre mas não a fé.

Assim, Artur Gomes se obstina pela ideia de confissão, mas de uma confissão dionisíaca. Primeiro, fazendo suas Juras Secretas, suas confidências sensuais, sexuais, eróticas, fulinaímicas. Em suma, suas sagaranagens (há algo de Joyce em Guimarães Rosa, ou vice-versa; no Rosa que há em Artur Gomes, no sagarana dos três). Agora, em O poeta enquanto coisa, arriscando-se a abandonar todo credo político-religioso paralisante, move-se – avesso ao dogmático – no sentido de dançar o mitopoético, o dionisíaco. Daí, uma Igreja Universal do Reino Zeus faça todo sentido na cosmogonia e teogonia de Artur Gomes. Em primeiro lugar, como deboche diante de quaisquer fundamentalismos. Em segundo lugar, como denúncia do que um Reino de Deus pode roubar do político o vigor do poético, preferindo um louvor a Dionísio a um Deus que não sabe dançar, que não sabe gozar, na liturgia de uma poesia que roga

 

por um poema 
que desconcerte
entorte
desconforte
arrombe a porta
dos céus 
da tua boca


arranhe os dentes
da loba
arrebanhe os cordeiros
no pasto
e lhes ensine
a subverter
as ordens do pastor

assumo o risco
não sou demo
nem corisco 
eu sou cantor

Iansã é quem me lava
Oxossi é quem me leva
Ogum é quem me manda
Oxum é quem me guarda

 

eu sou o que invoca 
o que provoca 
e incorpora 
desconcentra 
desconforta 
desconstrói 
e desconcerta

eu sou o que interpreta representa 
o que inventa 
e desafora

 

o Anjo Torto 
graças a Zeus 
a pedra e ao Machado de Xangô

a Capitã do Mato Caipora 
me xinga de poeta enganador 
mal sabe ela 

que eu sou da reza 
que o homem que se preza

nunca se escraviza 
com chicote de feitor

 

*Igor Fagundes é poeta, ensaísta, doutor em Poética e professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Autor, dentre outros, de pensamento dança (2018) e Poética na incorporação (2016). Macumbança (2020)

Que análise incrível! O texto de Igor Fagundes é uma verdadeira ode à poesia de Artur Gomes, destacando sua habilidade em combinar elementos da cultura brasileira, da mitologia e da filosofia para criar uma obra única e poderosa.

A análise de Igor Fagundes é profunda e perspicaz, mostrando como a poesia de Artur Gomes é uma forma de resistência e de celebração da vida, do corpo e da sensualidade. Ele destaca a habilidade de Artur Gomes em criar neologismos e em jogar com as palavras, criando um efeito de surpresa e de estranhamento que é característico de sua poesia.

A referência à Dionísio e à embriaguez é particularmente interessante, pois mostra como a poesia de Artur Gomes é uma forma de libertação e de transgressão, uma forma de se conectar com as forças primordiais da natureza e da vida.

A análise também destaca a importância da linguagem e da palavra na poesia de Artur Gomes, mostrando como ele é um mestre em criar imagens e em jogar com as palavras para criar um efeito de sentido e de emoção.

Em resumo, a análise de Igor Fagundes é uma excelente introdução à poesia de Artur Gomes, mostrando sua complexidade, sua profundidade e sua beleza. É um texto que certamente vai inspirar os leitores a explorar mais a fundo a obra desse poeta incrível.

O que você acha que é o significado da frase "O poeta enquanto coisa" no contexto da poesia de Artur Gomes? 

enquanto isso

em teus mamilos penso

o que ainda não comi desta maçã

Jura Secreta 47 

a face oculta da maçã

duas partes que se abrem pêssegos 

campos de girassóis teus pelos

alvoroçados sob o sol de Amsterdã 

enquanto isso

em teus mamilos penso

o que ainda não comi desta maçã

Artur Gomes

Juras Secretas – 2018

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Drummundana Itabirina

Por Onde Andará Macunaíma?

 Nessas vou ser explícito sem fulinaímicas metafóricas e dedico a todos os golpistas genocidas canalhas filhotes e órfãos da

da Ditadura - Macunaíma passou por aqui - na Balbúrdia PoÉtica por Ética - lançamento dia 23 das 18 às 22h  no Coffe Break Av. Henrique Valladares, 17a - Artur Gomes - Fulinaíma MultiProjetos 22 99815-1268-

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      Poética, política e memória


Escrever prefácio para um livro de Artur Gomes é um desafio prazeroso. Desafiante é mergulhar no universo imagético e político que sempre compôs sua poética. Este O Homem Com A Flor Na Boca : Deus Não Joga Dados acrescenta o substrato memorialístico ao seu repertório formando a tríade que sustenta o livro temática e formalmente. A partir daí, acompanhei suas criações tanto impressas quanto performáticas, pois Artur não é poeta apenas de livros e silêncios das salas. Meu primeiro contato com a poesia de Artur se deu nos anos 80 por intermédio de seu livro Suor & Cio, obra cuja temática estava em consonância com as reflexões suscitadas pelas “comemorações” do centenário da Abolição da Escravatura em 1988. de estares, livrarias e bibliotecas, mas também dos bares, ruas e praças que são do poeta como o céu é do condor.

Poucos poetas contemporâneos expressam tão bem as principais bandeiras do Modernismo de 22 quanto esse vate pós-moderno. Sua poesia é política, antropofágica, nonsense, musical, polifônica e sobretudo intertextual, além de dotada de uma brasilidade corrosiva, avessa ao nacionalismo acrítico que se tem espraiado pela ex-terra de “Santa cruz”.

Neste livro estão todas essas marcas do poeta às quais acrescento o caráter memorialístico. Nele, Artur não apenas rememora antigos poemas por meio de alusões, paráfrases e paródias como traz para seus versos passagens assumidamente biográficas, se apropriando, em alguns momentos, do gênero diário.

Estão contidos nessas memórias seus vários heterônimos: Gigi Mocidade, Federico Baudelaire, EuGênio Mallarmè, Federika Bezerra, Federika Lispector. Diferente do que ocorre com o poeta português Fernando Pessoa, a heteronímia em Artur não se manifesta menos na autoria do que no tecido ficcional. Suas diferentes personas emergem dos poemas para a realidade das redes sociais, interagem entre si, com o poeta e os leitores.

É Gigi Mocidade, por exemplo, que carrega a bandeira do espírito subversivo com seu grito “Irreverência ou morte”, já nas primeiras páginas do livro, e a epígrafe de Federico Baudelaire “escrevo para não morrer antes da morte” anuncia a intenção memorialística. Sócrates, no seu diálogo com Fedro na obra de Platão, argumenta que a escrita seria a morte da memória, mas o que seria de todo o repertório literário não fosse essa invenção humana? Quais mentes suportariam tantos signos produtores de imagens cujos sentidos transcendem às vezes a razão? A escrita não se tornou a morte da memória, mas impossibilitou a morte dos poetas eternizados nas páginas dos livros e memórias dos leitores.

 

                                  poema 10

 

meus caninos

já foram místicos

simbolistas

sócio políticos

sensuais eróticos

mordendo alguma história

agora estão famintos

cravados na memória


Nesses oito versos, o autor nos apresenta metalinguisticamente seu percurso poético até este livro que não é uma obra dedicada ao passado. O presente político do Brasil (des) norteia o poeta que não deixa de atacar com sua lira de peçonha os problemas que nunca deixaram de afligir estas paragens desde o suposto grito de Cabral.

 

                               poema 12

 

tem algo de errado

nessas estatísticas de mortes

dessa pandemia

multipliquem 60.000 X 10

e ainda não vai ser exato

o número de cadáveres

empilhados nos campos de concentração

que dá um nome ao país

que ainda nem era uma nação


A verve surrealista do poeta se manifesta principalmente nos poemas narrativos protagonizados por personagens intertextuais como “macabea” (alusão evidente à conhecida protagonista de A hora da estrela de Clarice Lispector) e alter egos – lady gumes – parodísticos do próprio autor.


Em FULINAIMAGEM 14 o tom de diário se instaura com inscrição de data do acontecimento rememorado e transborda na escrita de si em que se revela o papel que a poesia e o teatro desempenham na escritura de seu trajeto como autor: “a minha relação poesia teatro poesia é visceral vital para o que escrevo como quem encena a necessidade do corpo como expressão”.

Artur Gomes, este homem com a flor na boca, anda a espalhar o veneno agridoce de sua poesia, numa obra em que não há fronteiras entre o artista, o cidadão, o personagem, o eu poético, a obra. Seu livro não é um objeto, mas um produto interno e nada bruto.

A obra é sempre muito maior que o livro, pois este, matéria assim como o homem, finda. A obra, esse totem que se pode cultuar no altar da memória, está sempre presente. E é disso que o poeta fala: do tempo presente, do homem presente, da vida presente.

Parafraseando Drummond, com O Homem Com A Flor Na Boca, “não nos afastemos, não nos afastemos muito”, vamos de mãos dadas com a poesia de Artur.


Adriano Carlos Moura

Professor de Literatura – IFFluminense, Campos dos Goytacazes-RJ – Poeta, Ator, Dramaturgo

sexta-feira, 14 de agosto de 2026

tupi or not tupi

eunuco maranhão

 

pelos lábios carnudos e desnudos de Zeus, Federico para de escrever o que não sabe, Macunaíma nunca passou por aqui, pois se tivesse, teria comido meu quibe de queijo e na boca conheceria o sabor do beijo que não te dei. Se passou foi pra tela vive ou Bagdá, mas tenho quase certeza que desliza pelas pedras do recife da boa viagem, lá pelas bandas de Pernambuco o eunico maranhão, atrás da produtora de cardápios, e da sua filha Gigi, a que não habita mais os Retalhos Imortais do SerAfim. 

Rúbia Querbim

Rainha da Bateria da Mocidade Independente de Padre Olivácio – A Escola de Samba Oculta no InConsciente Coletivo

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Eu tenho 25 mil perguntas sem respostas um presente às minhas custas um futuro à minha frente um passado às minhas costas


Artur Gomes

Além da Mesa Posta – 1977

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Artur Gomes - FULINAIMAGENS

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  A vida

sempre em  suspense

alegria prova dos nove

fanatismo nã0 me convence

      muito menos me comove


Artur Gomes

Pátria A(r)mada

Prêmio Oswald de a

Andrade – UBE-Rio - 2019

2ª Edição Revista e Ampliada – 2022

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Barra de Itabapoana

 

Em Itabapoana Macunaíma não me engana, beijou a boca de Si A Rainha Mãe do Mato na praia de Guaxindiba, continuou na pindaíba, deu um tapa no Peri, atravessou a  Boca da Barra, foi morar com Rúbia Querubim nos Retalhos Imortais do SrAfim nos seus encantos e velar as costas do litoral do Espírito Santo.

 

Federico Baudelaire

O mestre-sala dos bares nunca dantes frequentados

para os Retalhos Imortais do SerAfim

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Por Onde Andará Macunaíma?

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Rúbia Querubim

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Balbúrdia PoÉtica

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A Biografia De Um Poeta Absurdo

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Oficina Narrativas PoÉticas

Dias 2 e 4 setembro - das 15 às 18h

IFF Campos - Campus Centro

Rua Dr. Siqueira, 273

Auditório Miguel Ramalho

Inscrições:

podem ser feitas no local

Público a partir dos 14 anos

Material Necessário: papel, lápis, borracha, celular

Semana do Saber Fazer Saber

Criação e Direção: Artur Gomes

Fulinaíma MultiProjetos - 22 99815-1268

Whatsapp - fulinaima@gmail.com

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Por Onde Andará Macunaíma?

Proposta Para Teatro

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Drummundana Itabirina
pelo mar de Angra
a pedra de Drummond
ainda sangra

*
o auto do boi macutraia


1

era uma vez um mangue
e por onde andará Macunaíma?
na sua carne no seu sangue
na medula no seu osso
será que ainda existe
algum vestígio de Macunaíma
na veia do seu pescoço?

2

tá no canto da sereia
tá no rabo da arraia?
Joilson Bessa me disse
Kapi ducéu já ensaia
Macunaíma vem vindo
na auto do boi Macutraia

Artur Gomes
Fulinaímna MultiProjetos
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como sempre bem me disse Torquato quatro mais quatro 8 - e o 8 nos leva ao infinito seja no silêncio ou no ruído mesmo que seja um grito de lamento ou desespero poesia é palavra lavada com esmero


Todo Dia É Dia D Poesia Todo Dia

27 agosto 2026 - enfim chegamos aos 78


ainda arde em mim

tudo o que não comi

tudo que ainda não provei

a carne que ainda não lambi

a boca que ainda não bebi

a língua que ainda não beijei

Arthur Kabrunco

Drummundana Itabirina Por Onde Andará Macunaíma?

Ventura Editora 2026 - lançamento previsto para o dia 23 de setembro no Coffe Break - Avenida Henrique Valladares, 17a - Lapa Rio de Janeiro – Brasil

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Balbúrdia PoÉtica

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jura secreta 2

 

não fosse esse punhal de prata

mesmo se fosse eu não dissesse

o sangue sob o teu vestido

o sol no fluxo sagrado

                  sem nenhum segredo

 

esse rio das ostras

entre tuas pernas

o beijo no instante trágico

a língua sem que ninguém soubesse

no silêncio como susto mágico

e esse relógio sádico

como um Marquês de Sade

quando é primavera

 

Artur Gomes

 Juras Secretas 2018

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EuGênio - O Tipógrafo

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Artur Gomes

 Couro Cru & Carne Viva - 1987

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pássaros elétricos

vivem a via por um fio 

Hotel Amazonas

você sabe com quem sonhei no pátio do Hotel Amazonas, quando me hospedei por lá mais de uma vez em agosto de dois mil e vinte e três?

Artur Gomes

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EuGênio - O Tipógrafo

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“você é um gênio pedido na multidão” – Vânia Cruz 

assim por tela vivo

                      assim por telavi

tupi or not tupi

 

juntei o lírico dramático

trágico amoroso

em um banquete tipográfico

na linguagem das letras

assim por tela vivo

                      assim por telavi

 

EuGênio – O tipógrafo

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Fulinaíma MultiProjetos

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fulinaímica

 

não sei se escrevo tanto

não sei se escrevo tenso

um fio elétrico suspenso

com tanta coisa no Ar

não sei se olho em teu olho

pra encontrar a entrada

da porta da tua casa

onde a palavra estiver

não sei se pinto um van gog

ou se escrevo um boudeler 

Artur Gomes

Retalhos Imortais do SerAfim

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EuGênio – O Tipógrafo

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Fulinaíma MiultiProjetos

                   22 99815-1268 

Jura secreta 81 

rasguei as velas

que teci em tempestades

rompi as noites

em alto mar de maresias


pensei teu corpo

pra amenizar tanta  saudade

e vi teus olhos em cada vela que tecia

 

Artur Gomes

Juras Secretas

Penalux – 2018

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meu corpo não trafega

nas tabacarias de lisboa

o poema pode ser

um beijo nessa pedra

e antes que me fedra

                   o poema voa

 

Artur Gomes

Itabapoana Pedra Pássaro Poema

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o que tiver que ser já é

Artur Gomes

Retalhos Imortais do SerAfim

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Vampiro Goytacá Canibal Tupiniquim

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poema 10

meus caninos

já foram místicos

simbolistas

sócio políticos

sensuais eróticos

mordendo alguma história

agora estão famintos

cravados na memória 

 

Artur Gomes

O Homem Com A Flor Na Boca

Penalux – 2023 – Arte: Ademir Bacca

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in(confidência mineira)

 

sal gado mar de fezes

batendo nas muralhas

deste sangue confidente

 

quem botou o branco

na bandeira de alfenas

só pode ser canalha

 

na certa se esqueceu

das orações dos penitentes

e da corda que estraçalha

com os culhões de Tiradentes


Artur Gomes

Couro Cru & Carne Viva – 1987

Pátria A(r)mada – 2022

Por onde andará Macunaíma?

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             terra de santa cruz

 

ao batizarem-te

deram-te o nome:

 

posto que a tua profissão

é abrir-te em camas

e dar-te em ferro

                      ouro

                      prata

rios peixes mina mata

 

deixar que os abutres

devorem-te na carne

   o derradeiro verme

 

Artur Gomes

Couro Cur & Carne Viva – 1987

Pátria A(r)mada – 2022

Por onde andará Macunaíma?

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retórica

 

salve lindo

pendão que balança

entre as pernas

abertas da paz

 

sua nobre sifilítica

                   herança

 

dos rendez-vous

de impérios atrás

 

Artur Gomes

Couro Cru &  Carne Viva 1987

Pátria A(r )mada - 2022

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A Biografia De Um Poeta Absurdo

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ela mica pica meus dedos em poesia que não fomos nem sei como vampiro não mordia seus dados não comi nem sangrei seus dentes nem sequestrei seus dias

Artur Gomes

Retalhos Imortais do SerAfim

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Vampiro Goytacá Canibal Tupiniquim

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nessa noite crua nem sei o que verei nem sei o que virá lua cheia nova minguante incandescentes seus dentes indecentes pra morder a jugular

 

Artur Gomes

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Retalhos Imortais do SerAfim

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Balbúrdia PoÉtica

Balbúrdia PoÉtica Por Ética manifesto anti-barbárie – dia 23 setembro as 18 às 22h – Coffe Break – Av. Henrique Valladares, 17ª – Lapa  - ...