sábado, 11 de fevereiro de 2023

uma faca só lâmina



uma faca só lâmina

para João Cabral de Melo Neto

uma faca só lâmina
tritura o intestino fino
corrói intestino grosso
mastiga a lama do osso
nessa noite cabralina.


 Artur Gomes, um poeta campista no palco da memória


                              por Deneval Siqueira

Artur Gomes é poeta de longa ancestralidade e forte techné, e sempre nos brinda com sua poíesis de tom ritmado na pesada musicalidade de herança oral. Campista goitacá, em breve, lançará, O Poeta enquanto Coisa, cuja Psicótica – 67 transcrevo abaixo.

Psicótica – 67
com os dentes cravados na memória

não frequento academias
físicas – e muito menos literárias
minha palavra avária
está à beira do precipício
nem sei porque não continuei
internado no hospício
onde choques elétricos aconteciam as tantas
no manicômio Henrique Roxo
na cidade de Campos dos Goytacazes
onde a medicina psiquiátrica
era exercida por capatazes de médicos açougueiros
e um Capixaba de nome Vespasiano
não resistiu ao surto
explodiu a cabeça contra a parede
e nenhum jornal da cidade
noticiou o suicídio
que eu trago na lembrança
com os dentes cravados na memória

Artur Gomes
O Poeta Enquanto Coisa

Tendo como marca registrada da sua obra o palimpsesto e o intratexto, onde se confundem a voz do eu-lírico, refundado na memória dos jornais, do noticiário policialesco, na jornada absurda da crueldade a la Antonin Artaud e salpicada de telurismo, sua poética vem sobressaltar os menos avisados.

Retomando alguns traços de Jorge de Lima e Ana Cristina César, não fica no passado mnemônico, pois seu traço lírico principal é do poeta memorialista cultural e telúrico, de perfil universalista, pois joga com o absurdo e com a persona teatral, desfazendo-se da loucura qualquer que seja, pois trabalha a arte do poema com desvario lírico musical a la Bethoven, a la Wagner, compondo uma ópera do absurdo nas memórias subjacentes.

O percurso de Artur Gomes é muito interessante e enriquece a historiografia dos poetas brasileiros contemporâneos, assim como Adriano Moura, Flávia D’Ângelo, entre outros não publicados ainda.

Vale a conferida. Estamos todos aguardando o livro de poemas O Poeta Enquanto Coisa (2019) , título que sugere a materialização da memória no poema, de grau cabralino, e que segundo o autor-poeta “o instante que nos obriga a ser memorialistas”. Certo. A memória não perdoa, ela finca a faca no peito do leitor, sem sangue, mas cheia de feridas.

Deneval Siqueira
Pós-Doutor e professor Titular de Teoria e História Literária
Centro de Ciências Humanas e Naturais
Programa de Pós-graduação em Letras - Doutorado e Mestrado em Estudos
Literários da UFES 


Oferenda

além das flores
o presente
é corpo/alma
entregue
aos mistérios do mar

Artur Gomes
foto: Jorge Ferreira 

www.fulinaimagens.blogspot.com


sexta-feira, 10 de fevereiro de 2023

em carne viva em carne crua



em carne viva em carne crua

a noite assombra
nos lençóis da nossa cama
depois de lamber teu sexo
em carne viva carne crua
meu olho cravado em tua lua
toda branca
toda nua

a bunda virada pro mar
a frente janela pra rua

não sei quantas palavras
ainda terei que inventar
pra significar a coisa
que ainda não tem nome
a coisa cínica
a cóisa sântrica
como linha do novelo
essa onda me pega Atlântica
da sola dos pés até a ponta
do último fio de cabelo

Artur Gomes

www.youtube.com/fulinaima



conkrEreções


qualquer palavra eu invento
na carnadura dos ossos
na escridura do éter
na concretude do vento
na engrenagem da sílaba
vocabulário onde posso
dar nome próprio ao veneno
que tem no agro negócio

Artur Gomes
http://www.youtube.com/watch?v=QKcWh18RKP4

www.youtube.com/tvfulinaima



Bolero Blue


beber
desse conhac em tua boca
para matar a febre
nas entranhas entredentes
indecente
é a forma que te como
bebo ou calo
e se não falo quando quero
na balada ou no bolero
não é por falta de desejo
é
que a fome desse beijo
furta qualquer palavra presa
como caça indefesa
dentro da carne que não sai

Artur Gomes

www.fulinaimagens.blogspot.com


murilínDianamente

o poeta experimental
passeia sua cueca monossilábica
por cima dos pianos
na madrugada devorando amoras.
macabea invoca nossa senhora das derrotas
para enfrentar o desvario.
o poeta está nu cio. macabea corre
o poeta flama inverso
macabea chora.
experimental barroco o poeta sobrevoa
palácios e urubus.
macabea tenta
mas não consegue ser pagu.
o poeta é phoda.
macabea pede:
o menino faz que não entende.
macabea implora:
e o poeta põe na metáfora do cu.

Artur Gomes

in BraziLírica Pereira: A Traição das Metáforas- Alpharrabio - 2000


1º de Abril

telefonaram-me
avisando-me que vinhas
na noite uma estrela
ainda brigava
contra a escuridão
na rua sob patas
tombavam homens indefesos
esperei-te 20 anos
até hoje não vieste à minha porta

Artur Gomes
dos livros : Couro Cru & Carne Viva – 1987 e Pátria A(r)mada 2ª Edição 2022





domingo, 5 de fevereiro de 2023

Federika A Porta Bandeira Que Bortou Olivácio Doido


Federika Bezerra: A Porta/Bandeira que Bortou Olivácio Doido

Samba/Enredo do Grêmio Recreativo e Escola de Samba Mocidade Independente de Padre Olivácio - no carnaval de 1993 - em 1995 integrou o repertório do projeto Retalhos Imortais do SerAfim - Oswald de Andrdade Nada Sabia de Mim - Realizado pelo SESC-SP


Em

mil novecentos e vinte e cinco

na noite de orgias satanazes

um raio de trovão incandescente

rachou a Igreja em Goytacazes

um vulto do despacho então desceu

movido por farol de grande luz

tocou na pedra quebrou cruz

a Rainha do Fogo dessa gente

Federika

de ouro azul e prata

na porta da igreja foi parida

criada pelo Padre Olivácio

que logo depois lançou na vida


aos cindo de idade encantada

foi pega masturbando em sacristia

por causa de um sonho com o príncipe

DuBoi da mais sagrada putaria

Expulsa

da cidade foi pra longe

cresceu entre os jardins de JardiNÒpolis

mas se você pergunta Froid Explica:

- o seu palácio agora é em Petrópolis


Aos

dezenove plena de alegria

conheceu Gigi da Bateria

na porta do Beco de Satã

na festa federal do Bar da Lama

a Deusa dos Lençóis de toda cama

sorrindo para ver como é que fica

dá um corte na história

inverte o drama

e transforma Ouro Preto em Vila Rica


e assim vamos cantar em verso e prosa

a saga dessa Deusa Iansã

que em busca da mordida na maçã

sonhava encontrar Guimarães Rosa


Viemos

do SerTão para os seus braços

porque a Mocidade Independente

é a mais fina e pura Flor do Lácio

afilhada do secular Padre Miguel

e fiel ao seu pai Padre Olivácio

e para completar a grande roda

trazemos o cacique Pau BraZil

o centenário Oswald de Andrade

filho da paulicéia que pariu!


Passando pelas bandas do Catete

dançando na maior intensidade

macumba com o índio brasileiro

nossa Ex-Cola campeã da liberdade

Federika engravidou o grafiteiro

do famoso cacete Samaral

que escrevia pelos muros da cidade:

Mocidade já ganhou o Carnaval!


e assim vamos cantar na grande roda

tudo o que deu e o que não deu

o dia que um pastor bem collorido

pensou ser pai de santo e se fudeu!

 

Federika Bezerra

https://www.facebook.com/sagaraninha/


sexta-feira, 3 de fevereiro de 2023

Subversiva 1


 Subversiva 1


E u não sou santa
a vida é bruta
e vou a luta
uma quadrilha
de filhos da puta
tomou o Planalto de assalto
o lugar deles é a lata de lixo
de onde nunca deveriam ter saído

vamos enxotar essa putada
varrer do mapa esses canalhas
nem que seja a golpe de gilete
a fios de navalhas
se é esse jeito ou única saída
subverter a ordem
acelerar o ritmo da libertação

a Arte é arma
e não temos tempo
de Temer a morte
Arte é intervenção da massa
armemos o povo
para o povo entender
e aprender a Ocupar
Democracia é palavra gasta

“a arte existe
porque a vida não basta”

se a massa está inerte
vamos fermentá-la
vamos fomentá-la
com fermento do biscoito fino
antes do anoitecer

“quem sabe faz a hora
não espera acontecer”

vamos a hora é essa
eu tenho pressa
não temos tempo pra espera
o trem das onze está partindo
e quem perder já era

Gigi Mocidade

Verão de 2019

www.fulinaimarem.blogspot.com



 SampleAndo



o poema pode ser um beijo em tua boca
carne de maçã em maio
um tiro oculto sob o céu aberto
estrelas de neon em Vênus
refletindo pregos no meu peito em cruz

na paulista consolação na água branca barra funda
metal de prata desta lua que me inunda
num beijo sujo como a estação da luz

nos vídeos.filmes de TV
eu quero um clipe
nos teus seios quentes
uma cilada em tuas coxas japa
como uma flecha em tuas costas índia
ninja, gueixa eu quero a rota teu país ou mapa

teu território devastar inteiro
como uma vela ao mar de fevereiro
molhar teu cio e me esquecer na lapa

Artur Gomes

Juras Secretas
Editora Penalux – 2018

disponível para compra em www.editorapenalux.com.br/loja/juras-secretas




Alice

para Alice Melo Monteiro Gomes

 

A música está no bico dos pássaros

na pétala da lamparina

no caracol dos teus cabelos

no movimento dos músculos

no m das tuas mãos

nada mais sagrado

do que teus olhos acesos

para me iluminar na escuridão

 

Artur Gomes

O Poeta Enquanto Coisa

Editora Penalux - 2020

https://secretasjuras.blogspot.com/

 

domingo, 22 de janeiro de 2023

FestCampos de Poesia Falada

 


FestCampos de Poesia Falada

 Projeto realizado pela Fundação Cultural Jornalista Oswaldo Lima, criado em 1999 com o objetivo de fomentar a criação e interpretação de poesia, chega a este ano de 2023 a sua XXIIIª Edição e volta a ser coordenado pelo seu idealizador: poeta.ator.vídeo.maker e produtor cultural Artur Gomes

 Na foto: Martinho Santafé, autor de Manual Para Assassinar Frangos, poesia vencedora do III FestCampos de Poesia Falada em 2001.

 Clique no link para ver o vídeo na interpretação de Aldebaran Bastos – que recebeu o prêmio de Melhor Intérprete do IIIº FestCampos de Poesia Falada - 2001

https://www.facebook.com/aldebaran.bastos/videos/3677343572354258

 leia mais no blog

FestCampos de Poesia Falada

https://coletivomacunaimadecultura.blogspot.com/

Balbúrdia PoÉtica - 14 de outubro

A Ventura Editora e o autor Arthur Gomes convidam para o lançamento do livro Drummundana Itabirina : Por Onde Andará Macunaíma 14 outubro - ...